sexta-feira, 7 de agosto de 2009

APRESENTAÇÃO

O ponto de vista ontológico fenomenológico existencial, como de resto em toda a psicologia e psicoterapia, enseja a abertura de todo um campo de atitude, de um campo conceitual, e metodológico, em psicologia ambiental. Psicologia Ambiental que passa assim a se constituir especificamente como uma psicologia ambiental ontológica e fenomenológico existencial dialógica.
Este ponto de vista ontológico, fenomenológico existencial, permite que possamos apreender o Ambiente-e-a-nós-próprios como um ser íntegro, ser no mundo, dialógico, na originalidade e indissoci-abilidade de sua implicação, na vivência de sua ontológica fenomeno-lógico existencial. Esboçamos ensaísticamente as possibilidades de alguma fundamentação desta psicologia ambiental fenomenológico existencial dialógica no ensaio O Ambiente somos nós, e no ensaio Objetivismo e ambienticídio.
A partir deste ponto de vista de uma psicologia fenomenológico existencial dialógica, podemos esboçar e constituir experimentalmen-te um conjunto articulado e original de categorias de psicologia ambi-ental, que pode nos auxiliar na compreensão e afirmação de nossas pertinências e relações ontológicas enquanto seres ambientais, e que pode nos auxiliar a denunciar os modos de violência e de violentação das condições destas pertinências e destas relações, e os modos das harmonias ambientais das quais fazemos parte, e às quais podemos constituir sustentavelmente. Da mesma forma que pode nos auxiliar na constituição de alternativas metodológicas de concepção e de mé-todo em psicologia ambiental.
A partir da compreensão e da afirmação desta nossa ontológica pertinência e cabimento ambientais, intrínsecos ao ponto de vista fe-nomenológico existencial dialógico, e ao ponto de vista da psicologia ambiental fenomenológico existencial, podemos constituir as premis-sas de uma ética ambiental. Ética ambiental esta que é eminente e especificamente estética, existencialmente afirmativa, a partir das premissas da Fenomenologia, do Existencialismo, e da Filosofia da Vida; e a partir da própria qualidade íntegra e dialógica do ser ambi-ental que vivencialmente, fenomenológico existencialmente, dialógi-camente constituímos ontologicamente. Da mesma forma que pode-mos constituir as premissas de uma pedagogia e de um manejo ambiental ontológico, estética e ambielogicamente fundamentado.

FENOMENOLOGIA AMBIENTAL

A Fenomenologia, o Existencialismo, a Filosofia da Vida, a Dia-lógica apontam para dois modos de sermos que nos constituem en-quanto humanos. O modo de sermos ontológico. E um modo de ser-mos ôntico.
Na experiência do modo ôntico de sermos -- modo de sermos como coisa, ao qual Buber, por exemplo, designou como eu-isso --, sujeito e objeto se dicotomizam, e se contrapõem, reificando-se, no limite, como sujeito em si, e objeto em si; definidas em si uma subje-tividade e uma objetividade ideais, não vivenciativas. Um mim mes-mo, e um eu mundo reificados, e cristalizados, enquanto coisas, que em suas extremizações se enrijecem, e se impermeabilizam.
Falece a dialógica do ser no mundo, o movimento em direção, e a partir de uma alteridade radical com a qual estamos ontologica-mente implicados. Esse modo de sermos, a que Buber designou como eu-isso, é naturalmente constiuinte do ser que somos. A sua preva-lência e enfraquecimento da alternância com o modo ontológico de sermos, aparta-nos, e aparta o mundo, ainda que nunca de um modo excludente, da condição de nosso modo ontológico de ser.
Na medida proporcional assim em que, progressivamente, se fragilizam a vivência de possibilidades e o desdobramento de possibi-lidades, inerentes e intrínsecos ao nosso modo ontológico de ser, fra-giliza-se a consciência e a motricidade especificamente ativas, criati-vas, na medida em que o a vivência de possibilidades, e do desdobramento de possibilidades constituem o que chamamos de a-ção.
A ação pode se dar como vivência meramente compreensiva, ou como vivência compreensiva e motora. Mas, necessariamente no modo compreensivo de sermos, a ação, a interpretação compreensi-va, é vivência do modo de sermos da potência, da vivência de possi-bilidades, e da vivência do desdobramento de possibilidades. Da este-sia, estética, e da poiese, como criação fenomenológico existencial, ontológica, dialógica.
A experiência do modo ôntico de sermos -- no qual se constitu-em tanto o nosso modo teorético de sermos, como o nosso modo comportamental, e pragmático -- se caracteriza, assim, pelo fato de que neste modo de sermos não vivenciamos possibilidade, e o seu desdobramento, no que chamamos de ação, de atualização, de inter-pretação compreensiva, performação e performance fenomenológico existenciais dialógicas.
Vale dizer que, na vivência predominante do modo ôntico de sermos, também, a mente progressivamente tende a se reificar, co-mo uma mente em si; destacada e contraposta a um corpo em si, igualmente desprovidos da vivência compreensiva da potência do possível, da possibilidade, e da ação compreensiva, ou compreensiva e motora. A alienação do ambiente e alienação do corpo se implicam recíproca e necessariamente.
Na sua momentaneidade, este modo ôntico, eu-isso, de sermos faz parte do que somos; ou seja, é uma dimensão, também, da onto-logia de nós mesmos. Só se caracterizando como problemático em suas extremizações, e instalações, quando prescreve e impede a al-ternância com o modo ontológico, vivencial, fenomenológico existen-cial, eu-tu, de sermos.
O modo ontológico de sermos -- comum a todos nós, enquanto humanos, em alternância com o modo ôntico de sermos --, ainda que freqüentemente desvalorizado, ou mesmo negado, ou mal entendido no âmbito de uma civilização tecnológica, pragmática, e comporta-mental, é o modo ontologicamente originário de sermos, dele deriva o modo ôntico de sermos; e o retorno existencialmente cíclico a ele permite-nos, sobretudo, assim, a vivência da ação, a partir da vivên-cia do possível e do desdobramento do possível, que lhe é exclusiva, e própria.
Este modo ontológico de sermos tem características muito pe-culiares, eventualmente desconcertantes, no âmbito de nossa civiliza-ção, inconvenientes; mas características, e condições de possibilidade de nossa ação, de nossa criação. Quer seja a um nível e numa moda-lidade meramente psicológica, meramente compreensiva; quer seja ao nível e numa modalidade psicológica, compreensiva, e motora.
Dentre as mais fundamentais características deste modo onto-lógico, eu-tu, de sermos, destaca-se, pela intencionalidade, a sua condição como um modo de sermos no qual se dissolve a dicotomia sujeito-objeto. De forma que no modo ontológico de sermos tende-mos a um tipo característico de vivência em que superamos esta di-cotomização.
Ainda que a vivência de nosso modo ontológico de sermos seja uma forma de vivência na qual não vigora a dicotomia sujeito-objeto, neste modo de sermos vigora caracteristicamente a dualidade da dia-lógica eu-tu, na qual nós mesmos e o ambiente se nos damos como alteridades radicais, e ativas, necessariamente implicadas, numa dia-lógica, como dia-logos.
A dimensão deste modo ontológico de sermos não se dá como nosso modo reflexivo de sermos, como o modo teorético de sermos. Ela se dá especificamente como vivência, ou seja, é pré-reflexiva, pré-conceitual, pré-teorética. Da mesma forma que é pré-comportamental, e pré-pragmática. Ou seja, ainda que constitua as bases sobre a qual pode se desenvolver a teoria, é ele mesmo um modo momentaneamente pré-teórico de sermos; ainda que constitua as bases do comportamento, e da utilidade e da funcionalidade, é ela mesma, em si, na qualidade própria de sua vivência, pré-comportamental, pré-prática, pré-pragmática.
Uma característica fundamental assim dos momentos da dura-ção deste modo ontológico de sermos – do modo ontológico de ser-mos ambientais --, é a de que, enquanto duram, eles são caracteris-ticamente despropositais. Ou seja, o modo de sermos de sua vivência é um modo de sermos no qual não vigoram as relações de causa e efeito – a causalidade --, e a utilidade: o uso e a utilidade. Neste modo de sermos estamos vivencialmente impregnados de pos-sibilidades, e, caracteristicamente, o que vivenciamos são as possibi-lidades que se apresentam, e se impõem, e o seu desdobramento cri-ativo e poiético, no que chamamos de ação. As possibilidades têm uma potência e um sentido próprios, e somos a vivência de sua po-tência e do seu sentido. Podemos viver ou recusar a possibilidade, e o seu desdobramento; ou podemos vivenciá-la e navegar o seu desdo-bramento, mas este processo da vivência da possibilidade e de seu desdobramento é eminente e especificamente desproposital; não é do modo de sermos no qual vigoram as relações de causa e efeito, e a utilidade.
Caracteristicamente, pois, o modo ontológico de sermos, en-quanto eminentemente impregnado de possibilidade, e de possibilita-ção, se configura como sendo, naturalmente, da ordem da potência do possível, e de seu desdobramento; o que faz com que ele não seja da ordem do real, da realidade, do realizado. Já que a vivência de possibilidade e de possibilitação, e a experiência da realidade, se con-trapõem antinomicamente como modo de sermos. A vivência ontoló-gica, eu-tu, a ação, a criação – poiese --, é da ordem da vivência de possibilidade, e da vivência do desdobramento de possibilidade, é a-tualidade e atualização, e, ainda que seja da ordem da realização, não é da ordem da realidade.
O ambiente pode se dar quer seja ao modo ôntico, ou ao modo ontológico de sermos. O ambiente pode se dar existencial, ou não e-xistencialmente. Mas em sua raiz, em seu caráter originário, como o ser de tudo, no ser no mundo, o ambiente é própria e especificamen-te vivência ontológica.
Grosso modo, esse modo de sermos que podemos chamar de ontologicamente ambiental, pode ter várias designações ao nível da ontologia. É o modo de sermos a que Dilthey chamou de vivido, vi-vência (erleben, erlebeniss, ambas as palavras se referindo a vida, Leben). Guardando a especificidades de cada referencial, é o modo de sermos dialógico, a que Martin Buber chamou de eu-tu; o modo de sermos que Heidegger designou de ontológico; que Husserl designou de lebenswelt...
Este modo de sermos a que podemos designar de ontológico, é, assim, o modo de sermos no qual vivenciamos a indissociabilidade de sermos ambientais, a integridade entre nós mesmos e o que enten-demos por meio ambiente, a integridade do ser do qual fazemos in-dissociavelmente parte, e que podemos assim chamar de ambi-ente. Neste modo de sermos, estamos indissociavelmente implicados, com o ambiente, e como ambiente, somos, nesse modo de sermos, ambi-entais.
De modo que, como observamos, ontologicamente, e ontologi-camente ambientais, não temos uma objetividade, nem uma subjeti-vidade em si, para que possamos constituir o ambiente como objeto, e a nós próprios como sujeitos de um ambiente predominantemente objetivo, causalmente manipulável em sua essência, pragmático e pragmatizável. Ainda assim, o ambiente se dá como, e dispõe da, e desdobra, permanente e infinitamente a alteridade radical de um tu em cujo mistério, e na dialógica com o qual, implicamos e estamos implicados.
A partir das premissas dessas perspectivas podemos bosquejar experimental e especulativamente as categorias de uma tal psicologia ambiental fenomenológico existencial. Comentamos algumas a se-guir.

AMBIENTE

Ambiente é o conceito fundamental em psicologia ambiental fe-nomenológico existencial dialógica. Não se trata do ambiente no sen-tido ôntico do senso comum. Em sua qualidade específica e originária, o ambiente é concebido na dimensão de sua vivência ontológica, fe-nomenológico existencial dialógica. Assumimos toda a implicação da vivência ambiental ontológica fenomenológico existencial, na qual, pela sua característica intencionalidade, o ambiente não se destaca como objeto, numa dicotomia sujeito-objeto, mas se dá numa corre-lação tão intrínseca, característica do modo de sermos a que Buber designa como sendo da relação eu-tu. Para a qual não tem sentido conceber um dicotomia sujeito-objeto em relação ao ambiente, ou seja, não faz sentido conceber um ambiente em si, ou um sujeito em si. Ainda que o ambiente se dê com a alteridade absoluta de tu, com o qual estamos dialogicamente implicados.
Assim, o ambiente, efetivamente, não é o que se nos dá, no nosso modo ôntico, eu-isso, na experiência de nosso modo de sermos como coisa. O ambiente, ou o sermos ambientais, a nossa intrínseca ambiência (v.), só nos é dada em nosso modo ontológico, fenomeno-lógico existencial dialógico de sermos.
Esse modo de sermos, o sermos ambientais, fenomenológico existenciais dialógicos, é todo ação. Ação meramente psicológica, di-gamos: ação meramente compreensiva; ou ação compreensiva e mo-tora. Na medida em que, nesse modo de sermos, fenomenológico e-xistencial, ontológico, dialógico, somos abertura para a vivência da potência de possibilidades, que se desdobram -- no que entendemos como poiese, interpretação fenomenológico do existencial, interpreta-ção compreensiva. Ação.
De modo que o ambiente como vivência, especificamente o ambiente como vivência de ação, ontológico, é diferente do ambiente como coisa, ôntico, – o ambiente como acontecer, como aconteci-mento, é diferente do ambiente como acontecido.
No ambiente como ação estamos incontornavelmente implica-dos, o ambiente como ação é afirmação ontológica, o ambiente como ação dá-se como relação eu-tu. Da mesma forma que não é do modo de sermos da dicotomia sujeito-objeto; o ambiente como ação está fora do modo de sermos (eu-isso) da relação de causa e efeito. O ambiente como ação dá-se como vivência, modo vivencial de sermos, que não é da ordem do modo de sermos da relação de causalidade, da relação de causa e efeito. A vivência do sermos ambientais, não sendo do modo de sermos da dicotomização sujeito-objeto, nem do modo de sermos da causalidade, animada e impulsionada pela vivên-cia de possibilidade e do desdobramento de possibilidade, é, assim, própria e especificamente, desproposital; na medida em que a ação: interpretação fenomenológico existencial compreensiva: compreen-são: poiese, é, própria e especificamente, desproposital. Ainda que plenamente consciente, e criativa, no sentido artístico, fenomenológi-co existencial, dialógico, dionisíaco, do termo.
O ambiente como ação, o ambiente em sua vivência ontológica -- evidentemente disponível a qualquer ser humano, na medida em que esteja disponível para este modo vivencial e ontológico de ser --, é, assim, vivência corpo-ativa; não é abstração: é corpo, vivido, sen-tidos; é estésico, é estético, é per-feito, ou gravita para a per-feição -- enquanto modo performático, fenomenológico existencial per-form-ativo, de fazer poieticamente, a partir da vivência e desdobramento do pulso do possível (que ainda pulsa, todavia...). É o ambiente pre-sente, o ambiente como acontecer. O presente é o modo de sermos de pré-coisa, que se caracteriza pela atualidade, ou seja, por ser ato, ação, que se dá ao modo de sermos, ontológico, de pré-coisa, de pré-ente: presente.
No “meio ambiente” como coisa, na experiência de nosso modo ôntico de sermos, o ambiente pode se constituir como realidade obje-tiva, como realizado, pode se constituir como realidade – e não como possibilidade, e desdobramento de possibilidade, não como ação. O “ambiente” neste modo de sermos não é implicação ontológica. As-sim, o ambiente neste modo ôntico de sermos pode se constituir co-mo um meio ambiente teórico: conceitual, explicativo; como um meio ambiente técnico, ou como um meio ambiente prático, pragmático; ou como um meio ambiente comportamental. É da ordem do aconte-cido, e não da ordem do acontecer. E pode ser manipulado objetiva-mente, negativamente, segundo uma concepção de uma sua utilida-de, e não do desfrute de sua atualização, como desfrute da atualização de nós próprios.
O ambiente não é um ecossistema, não é um sistema casa, no qual vivemos enquanto seres biológicos. No íntimo de nosso ser, no íntimo de nossa vivência ontológica, fenomenológico existencial, me-diada pelas culturas de nossa pertinência, existe entre nós e o ambi-ente uma correlação tão intrínseca, que é anterior a qualquer possibi-lidade de dissociação, e apenas suscetível à dialógica.
Não faz sentido, assim, neste modo de sermos, falar de dissoci-ação. Assim, a idéia de ecossistema, a idéia de eco-logia não dá con-ta de nosso logos ambiental – o sentido que efetivamente vivencia-mos como ambiental. A rigor, e originariamente, não vivemos numa oikos, que seria o ecossistema. Mas somos ontologicamente, na es-sência de nosso ser, que é vir a ser, ambientais;entes ambientais, abertos ao ser do ambiente como ser a que somos propriamente per-tinentes: pertencemos de um modo indissociável, ainda que eminen-temente dialógico -- de relação, o que quer dizer implicação, com uma alteridade radical --, pertencemos a um ser que envolve e imbri-ca o meio ambiente e o que entendemos como nós próprios enquanto sujeitos. Parece, portanto, que, apesar do seu romantismo, teremos que abrir mão ou relativizarmos a palavra ecologia; ou pelo menos o seu conceito, num sentido fenomenológico existencial e dialogica-mente ontológico.

AMBIELOGOS

Nossa ontologia, e nossa vivência ontológica fenomenológico existen-ciais, que são fenomenativas, são vivências de nossa co-pertinência e implicação ontológica e dialógica com o que, ao nosso modo não on-tológico de ser, entendemos como meio ambiente. Esta vivência in-tencional, fenômeno e dia lógica, é logos, é sentido, é ambie-logos. Como tal, e como fenômeno logos, dia logos, o ambielogos é eminen-tente e essencialmente ativo, compreensivamente interpretativo, e hermenêutico, portanto. Ou seja, é pré-compreensivo e compreensi-vo, e é vivência de possibilidade, que se insinua pré-compreensivamente, e que se desdobra compreensivamente na cons-tituição da ação, que pode se configurar como ação, interpretação, compreensivas, meramente compreensivas, ou compreensivas e muscularmente motoras.

AMBIELOGIA

A Ambielogia é a hermenêutica ambiental, e ambientativa, fenomeno-lógico existencial. É conhecimento e motricidade muscular compreen-sivos e ativos.

AMBIÊNCIA/AMBIENTIDADE

Ambiência/ambientidade é a qualidade vivencial do modo de sermos ontológicamente ambientais. Ou seja, o modo fenomenológi-co existencial, dialógico, de vivência, de sermos ambientais.

AMBIENTAÇÃO/ AMBIENTATUALIZAÇÃO/ AMBIENTATIVIDADE/AMBIENTATUALIDADE

A ação é especificamente inerente ao modo ontológico, com-preensivo, fenomenológico existencial dialógico, de sermos. Na medi-da em que a ação é a vivência, compreensiva, do desdobramento de possibilidades, e todo este modo de sermos é apenas vivência de possibilidades e do desdobramento delas.
Assim, este modo de sermos é todo ele ação, é todo ele movi-mento, acontecer e acontecimento, na medida em que está todo ele, em sua duração sempre cíclica e momentânea, impregnado de possi-bilidade e de possibilitação; ou seja, de desdobramento de possibili-dade, no que entendemos por ação, no sentido fenomenológico exis-tencial dialógico.
A ação é o que entendemos por interpretação fenomenológico existencial dialógica. Que é ontológica, e compreensiva. Interpretação compreensiva, na medida em que a vivência deste modo ontológico de sermos é toda ela da ordem da compreensão. Este modo compre-ensivo de sermos é da ordem da implicação, diverso do modo de ser-mos ôntico da explicação, da mesma forma que diverso do modo comportamental de sermos, e do modo prático de sermos.
De forma que a momentaneidade da vivência ambiental feno-menológico existencial dialógica, ontológica, é, todo ela, ação; vivên-cia compreensiva, implicativa, de atualização de possibilidades, no âmbito de sua duração.
A qualidade própria da ação no âmbito da vivência ambiental, meramente compreensiva, ou compreensiva e motora, implicativa, é o que entendemos como ambientação, como ambientação, ambienta-tualização, como ambientatividade, como ambientatualidade.

COMPREENSÃO

COMPREENSÃO AMBIENTAL

DISAMBÊNCIA/DISAMBIENTIDADE

A Ambiência, a Ambientidade (v.) é ontológica, é logos consti-tuinte de nosso ser. Faz parte do modo de sermos e do que somos enquanto humanos, no que temos de mais essencial e originário. É cíclica e ambiguamente vivenciada, na medida em que se constitui no modo ontológico, fenomenológico existencial dialógico de sermos, na alternância natural e cíclica entre este modo de sermos e o modo ôn-tico e coisificado de sermos.
A Disambiência/Disambientidade resulta de dificuldades ambi-entais, a partir das quais se torna difícil a vivência alternante da mo-mentaneidade cíclica de nossa vivência ambiental ontológica. Dificul-dade de vivência da momentaneidade cíclica do modo ontológico de sermos. Esta dificuldade na vivência do ambiente em sua vivencia ontológica originária é o que entendemos por Disambiên-cia/Disambientidade. Estas dificuldades podem ser momentâneas, ou duradouras, da mesma forma que a disambiência/disambientidade.

DISAMBIENTAÇÃO/ DISAMBIENTATUALIDADE /DISAMBIENTATIVIDADE.

A ação, a atualidade, a atividade, no âmbito da experiência da Disambiência, na Disambientidade, é a Disambientação, a Disambien-tatualidade, Disambientatividade. É a ação ambiental impotente, não atualizante da potência de possibilidades, na medida e em proporção direta em que a disambiência impede a vivência do modo de sermos-da ambientidade como vivência do modo ontológico de sermos ambi-entais, que permite a ação ambientativa, potente, a partir da vivência de possibilidades e do desdobramento de possibilidades.

DESAMBIÊNCIA/DESAMBIENTIDADE

A ação ambiental, ou a vivência ambiental ativa, é afirmativa, desproposital, hemenêutica, poiética, performativa, estética, per-feita (enquanto modo vivenciativo de fazer). Dá-se na vivência ambiental de nosso modo fenomenológico existencial de sermos, como desdo-bramento, atualização, das possibilidades que inerentemente nos im-pregnam, na duração dos momentos deste modo de sermos. A di-sambiência/disambientidade se constitui a partir de dificuldades na relação ambiental, e se caracteriza como ação e vivência problemáti-cas (im-per-feitas) no sermos ambientais. A permanência da disam-biência conduz e modela a Desambiência/Desambientidade, ou seja: não apenas uma dificuldade de vivência ambiental propriamen-te, mais ou menos transitória, ao modo ontológico de sermos, mas uma progressão e cronificação do ambiente como objeto, e uma visão meramente objetiva, utilitária, pragmática do ambiente; ou uma vi-são meramente conceitual dele. Na Desambiência, na verdade, cresce uma aversão à vivência do ambiente em sua propriedade on-tológica, fenomenológico existencial dialógica; e se instala uma expe-riência meramente teórica, e aversiva, do ambiente; ou uma perspec-tiva utilitária, mera ou predominantemente pragmática, e/ou comportamental, fundadas no ressentimento e no ideal ascético,.
Por exemplo, o homem e a cultura coloniais Brasileiros, geogra-ficamente alienígenas, e impulsionados por fortes determinantes eco-nômicos e culturais, desenvolveram uma relação alienígena, disambi-ental e desambiental, com a Mata Atlântica, e na verdade com todas as matas. Interpretaram as matas em termos de que deveriam e de-vem ser necessariamente destruídas e aniquiladas. Eventualmente com uma postura pragmática, objetivista, que prosperou, na ausência e repressão de uma relação ontológica com o ambiente, que permi-tisse o desenvolvimento de uma sociedade e cultura ambientais.
Esta condição, disambiental, e desambiental, do homem e da cultura coloniais Brasileiras pode ser melhor entendida quando con-trastada com a atitude e cultura ambientais dos insurgentes Cabanos de 1832-64, da região do Litoral, Mata, e Agreste, do Norte de Alago-as, e do Sul de Pernambuco.
O termo Cabanagem, dado à insurreição, deriva de cabanas, das cabanas que os Cabanos construíam nas matas, e que eventual-mente se congraçavam em Arraiais. Os Arraiais eram as bases fun-damentais das tropas cabanas. Os Cabanos eram Índios aldeiados, Caboclos, Negros, Mulatos, Mamelucos, Cafusos Curibocas, e Brancos pobres, que se voltaram contra a condição de opressão e decultura-ção que lhes era imposta pela ordem sesmeiro escravista imperial da cultura do engenho, da produção e exportação de açúcar. Em sua in-surgência eles especificamente se recusaram ao engenho e ao meio urbano da civilização do açúcar, inclusive à desambiência própria de-les, e optaram pela vida nas cabanas e nos arraiais em plena floresta, fazendo deles as bases de sua insurgência. Aí desenvolveram uma cultura ambiencial, ambientativa, com uma economia agrícola, e de caça, pesca, e coleta dos produtos da floresta.
O livro Utopia Armada, de Dirceu Lindoso, faz um importante registro e interpretação não só da Cabanagem enquanto insurgência, mas, em particular do ambiente e cultura ambienciais e ambientati-vos Cabanos. A cultura ambiencial Cabana se desenvolveu, e evoluía em oposição e numa direção oposta à desambientidade da cultura colonial imperial e sesmeiro escravista.

DESAMBIENTAÇÃO/ DESAMBIENTATUALIDADE/ DESAMBIENTATIVIDADE

A Disambiência/Disambientidade mal resolvida implica na Di-sambientação/Disambientatualidade/Disambientatividade; e a per-manência nela conduz à Desambiência/Desambientidade. A Desambi-ência/Desambientidade se caracteriza pela Desambienta-ção/Desambientatualidade/Desambientatividade. Que configu-ram o caráter “ativo” da Desambiência. Na verdade a Desambienta-ção não é efetivamente ação. Na medida em que este modo de sermos ambientais se caracteriza como uma perda da capacidade pa-ra a vivência ambiental ontológica, com a perda da própria vivência ontológica do sentido de co-pertinência ambiental. Dá-se por uma tendência à evitação e aversão ao modo de sermos ontológico, feno-menológico existencial dialógico, somente no âmbito do qual a vivên-cia, que nos é potenciamente inerente, de intrínseca co-pertinência ambiental, e ambientativa é possível. Só no modo ontológico de ser-mos a ação, a ambientação é possível, na medida em que apenas nesse modo de sermos vivenciamos possibilidades, que vivencialmen-te, compreensivamente, se desdobram, no que entendemos como ação. A disambientidade se constitui de um modo niilista de sermos, resultando em ressentimento, em culpa e em ideal ascético, segundo a formulação de Nietzsche, reativamente característicos, já que a a-ção da potência do possível, da vontade de possibilidade, é reprimida. O ambiente desvitalizado, objetificado, passa a ser objeto privilegiado do ideal ascético, do ressentimento e da culpa, resultando no que pó-deríamos chamar de ideal ascético ambiental, em ressentimento am-biental, em culpa ambiental. Raízes privilegiadas da tendência para a predação ambiental, para a destrutividade ambiental. De modo que a Desambientação, característica da Desambientidade, não é propri-amente ação, mas reação, decorrente da repressão do modo ontoló-gico, potente (de possibilidade) de sermos, e da potência de possibi-lidades, e do desdobramento de posibilidades, da ação, efetivamente, que é inerente e espontânea a sua vivência.

HERMENEUTICA AMBIENTAL/HERMENEUTICA AMBIENTATIVA

ESTÉTICA AMBIENTAL

ESTÉSICA AMBIENTAL

LOGOS AMBIENTAL (v. AMBIELOGOS)

PREDAÇÃO AMBIENTAL

A predação ambiental é a atividade de destruição ambiental. Funda-Se numa atitude de alienação ambiental, disambientidade, pe-la dificuldade, ou incapacidade, mais ou menos momentâneas, para a vivência ontológica do ambiente, resulta então o ambiente, em seu caráter e modo ontológico, caráter e modo de vivência ontológica, depreciado, indesejável, minimizado, ameaçador... A condição decor-re e implica em niilismo, e em suas variedades de ressentimento de culpa e ideal ascético, com a desvalorização da ambientidade, vinga-tividade, violência ressentida, destrutividade contra o ambiente, constituído então como coisa, isso, fora da vivência ambiental; como inconveniente, como objeto, como utilidade. A atitude resulta de uma postura de negação da vida de um modo geral, em sua vontade de possibilidade, conforme mostrou Nietzsche, e que ao contrário de uma ética da afirmação e da superação de si, se esmera na constitui-ção do outro como ruim, na constiuição de si por comparação como bom, e no empenho na destruição do outro na sua constiuída “ruin-dade”. O ambiente, a ambientidade, assim, o potente outro constituí-do como ruim, e objeto de vingança e de destrutividade. Nesta dinâ-mica, o ressentimento se volta contra o próprio ressentido, como Nietzsche observou, que agora não só constitui o outro como ruim, mas passa a se constituir a si próprio pejorativamente, como impres-tável.
É interessante observar que, a partir da ótica da integridade di-nâmica e dialógica fenomenológico existencial ambiental, a predação ambiental é como um tipo de auto agressão, similar ao padrão das agressões auto-imunes do corpo. Metaforicamente, podemos pensar a predação ambiental como Ambieticídio.

PRESENTE AMBIENTAL/PRESENTIDADE AMBIENTAL

O presente, pres-ente, é o modo de sermos de pré-coisa, o modo de sermos ontológico, fenomenológico existencial dialógico. É a temporalidade ontológica, fenomenológico existencial, que tem como critério o tempo particular da possibilidade e de sua atualização. Ou seja, o presente está caracterizado ação, pela atualidade, ou seja, pela vivência de possibilidade e do desdobramento de possibilidade. No que concerne à ontológica vivência ambiental fenomenológico e-xistencial dialógica é que podemos nos referir ao presente, à presen-tidade ambiental.

PRESENTIDADE AMBIENTATIVA/PRESENTE AMBIENTATIVO

Assim, o que é característico do presente, e o presente ambien-tal, como vivência fenomenológico existencial dialógica, é o ser ele inteiramente impregnado de possibilidade, e, portanto, de desdobra-mento de possibilidade; que se dá como possibilitação, como ação, como atualidade, como interpretação fenomenológico existencial, compreensiva, como performação, como performance. De modo que a ontológica vivencial ambiental fenomenológico existencial é emi-nente ativa, em sua qualidade própria ambiental. A isto entendemos como presentidade ambientativa, como presente ambientativo.

CONCLUSÃO

De um modo sumário e experimental, podemos assim propor um conjunto de categorias articuladas que podem sugerir e participar de um universo categorial de uma psicologia fenomenológico existen-cial dialógica. Como vimos, estas categorias se fundam e se originam na categoria fundamental desta psicologia que é a concepção feno-menológico existencial dialógica de ambiente, como vivência ontoló-gica ambiental fenomenológico existencial dialógica, enquanto modo ontológico de sermos.
O ambiente assim, se dá no modo compreensivo de sermos, e não ao modo explicativo, teorético, ou comportamental. E, entendido como vivência, compreensiva, é, como toda vivência, impregnado de possibilidade e de desdobramento de possibilidade. Desdobramento este que se configura como ação, como interpretação compreensiva, fenomenológico existencial; como atualização, como performação, e performance fenomenológico existencial. De modo que o ambiente, o ser ambiental que somos, na momentaneidade ontológica de nossa vivência fenomenológico existencial dialógica, é, específica e eminen-temente, ação, atualização. Dá-se como acontecer, e não como acon-tecido. E é da ordem do presente — o nosso modo fenomenológico existencial dialógico de ser de pré-coisa, no qual é possível, e se dá, a ação. E não da ordem do acontecido, da dimensão da coisidade, da dimensão do modo de sermos da realidade, o modo impotente de sermos. De cuja predominância resulta o niilismo, o ressentimento, a culpa e o ideal ascético, que, no caso, se manifestam como predação e destrutividade ambientais.

Bibliografia de Referência

BUBER, M., EU E TU.
DELEUZE, G., NIETZSCHE E A FILOSOFIA.
HEIDEGGER, M., SER E TEMPO.
LINDOSO, D., UTOPIA ARMADA.